O verão está chegando e, com ele, as luvas.
Pelo que me avisam o sol é tórrido nos meses mais quentes, e isso vai de encontro com a preferência nacional por peles alvas, lisas e sem manchas. Mesmo agora, que a temperatura ainda está amena, já é hora de se proteger porque, segundo consta, os raios ultra-violetas são mais fortes na primavera.
Nas últimas semanas, as lojas começaram a receber chapéus, viseiras, sobrinhas, luvas, luvinhas e luvões de tecido fino. Por luvões eu quero dizer aqueles de baile de debutante, que sobem até depois do cotovelo.
Não bastassem esses acessórios, hoje pela televisão vi venderem um creme branqueador hiper potente. Como tudo o que é vendido pela televisão, esse foi demonstrado em mais ou menos 20 mãos de mulheres. Uma das mãos ia pra bacia com a tal kiboa, enquanto a outra ficava fora. Em seguida, a cobaia tinha que apoiar as duas mãos juntas na mesa, a título de comparação, pra então todas cantarem em coro "uaaaaaau". E ficava mais branco mesmo. Sabe-se lá com que tipo de ácido sulfúrico na composição.
Não bastasse isso, quando aplicação nas mãos terminou as convidadas passaram a espalhar o produto pelo rosto. Too much.
dimanche, avril 27, 2008
jeudi, avril 10, 2008
Pálpebras alinhadas
Das fontes partilhadas por mais ou menos todo mundo (Reuters, Agência Estado, EFE), leio, edito, escolho fotos e penduro títulos nos assuntos internacionais, pois essa é uma das minhas funções no trabalho.
Há semanas falamos do Tibete, dos monges querendo independência e da repressão chinesa. E, só ontem, a minha posição geográfica fez alguma diferença no que eu ouço sobre o assunto.
No final da aula de japonês, o meu colega chinês decidiu soltar o verbo. A visão dele é - óbvio - muito diferente da dos americanos, franceses e argentinos que estão tentando assoprar a tocha olímpica. Não mudou a minha opinião, mas ficou ecoando por trás de todas as imagens do Dalai Lama que passaram na TV hoje (ele está de visita ao Japão).
Eis algumas pinceladas intrigantes do que ele falou sobre o assunto:
"O Tibete era uma região muito atrasada antes das so called 'guerra' e 'invasão' chinesas. As pessoas viviam em regime de quase escravidão em relação aos monges. Eles faziam coisas atrozes às vezes, como arrancar os olhos dos servos. As pessoas lá são completamente subservientes aos monges. Eles exercem poder cultural sobre elas."
Os monges são proprietários de terra?
"Sim, Os monges não trabalham. Eles apenas recolhem os tributos das pessoas, que são imensos".
Sobre a administração chinesa:
"O governo da China dá muita ajuda ao Tibete, e envia oficiais para ajudar a administrar a região. Além disso, os tibetanos têm muita ajuda para viver nos outros lugares do país. Na minha cidade, que é uma cidade pequena do sul da China, havia vários estudantes tibetanos. Imagina só, numa cidade pequenininha.
E, para entrar na faculdade, por exemplo, eles precisam ter pontuações muito menores do que as nossas. São ajudados para entrar na universidade. O sistema educacional no Tibete é muito fraco, a China ajuda a melhorar isso."
Sobre o Dalai Lama:
Teoricamente, se é uma religião (o budismo), não deveria haver um líder. Mas há o Dalai Lama. E o grupo dele, que vive na Índia, não trabalha. O que ocorre é que os monges exilados tinham uma vida muito fácil. Isso mudou e eles querem recuperar essa vida.
O Tibete é uma região rica?
"Não, é pobríssima".
Então por que a China não concorda em independizar a região?
"A China tem um histórico de invasões, da França, da Inglaterra e do Japão. Depois delas, há uma sentimento muito forte de que os chineses não devem ficar mais divididos. Isso está no coração do pensamento chinês".
Que motivos tu achas que os tibetanos podem ter para querer a independência?
"Não posso imaginar. Talvez para receber mais dinheiro do Ocidente".
Há semanas falamos do Tibete, dos monges querendo independência e da repressão chinesa. E, só ontem, a minha posição geográfica fez alguma diferença no que eu ouço sobre o assunto.
No final da aula de japonês, o meu colega chinês decidiu soltar o verbo. A visão dele é - óbvio - muito diferente da dos americanos, franceses e argentinos que estão tentando assoprar a tocha olímpica. Não mudou a minha opinião, mas ficou ecoando por trás de todas as imagens do Dalai Lama que passaram na TV hoje (ele está de visita ao Japão).
Eis algumas pinceladas intrigantes do que ele falou sobre o assunto:
"O Tibete era uma região muito atrasada antes das so called 'guerra' e 'invasão' chinesas. As pessoas viviam em regime de quase escravidão em relação aos monges. Eles faziam coisas atrozes às vezes, como arrancar os olhos dos servos. As pessoas lá são completamente subservientes aos monges. Eles exercem poder cultural sobre elas."
Os monges são proprietários de terra?
"Sim, Os monges não trabalham. Eles apenas recolhem os tributos das pessoas, que são imensos".
Sobre a administração chinesa:
"O governo da China dá muita ajuda ao Tibete, e envia oficiais para ajudar a administrar a região. Além disso, os tibetanos têm muita ajuda para viver nos outros lugares do país. Na minha cidade, que é uma cidade pequena do sul da China, havia vários estudantes tibetanos. Imagina só, numa cidade pequenininha.
E, para entrar na faculdade, por exemplo, eles precisam ter pontuações muito menores do que as nossas. São ajudados para entrar na universidade. O sistema educacional no Tibete é muito fraco, a China ajuda a melhorar isso."
Sobre o Dalai Lama:
Teoricamente, se é uma religião (o budismo), não deveria haver um líder. Mas há o Dalai Lama. E o grupo dele, que vive na Índia, não trabalha. O que ocorre é que os monges exilados tinham uma vida muito fácil. Isso mudou e eles querem recuperar essa vida.
O Tibete é uma região rica?
"Não, é pobríssima".
Então por que a China não concorda em independizar a região?
"A China tem um histórico de invasões, da França, da Inglaterra e do Japão. Depois delas, há uma sentimento muito forte de que os chineses não devem ficar mais divididos. Isso está no coração do pensamento chinês".
Que motivos tu achas que os tibetanos podem ter para querer a independência?
"Não posso imaginar. Talvez para receber mais dinheiro do Ocidente".
samedi, avril 05, 2008
dimanche, mars 23, 2008
Seeing things




É verdade que o bombardeio visual em Tóquio é absurdo. Algumas luzes piscam tanto que dá vontade de usar uma máscara de solda para proteger os olhos. Mas tem a tal coisa de ser analfabeto. Todos os estímulos visuais, por mais invasivos que sejam, são só imagens. Dá um descanso.
Explico: com o que eu sei de japonês, não dá pra ler nenhuma frase. E só logro alguma palavra quando paro na frente de uma placa e fico balbuciando. Por conseguinte, não entra nada com sentido abstrato no meu cérebro que não seja convidado a entrar.
Isso transforma a minha viagem, até agora, em cores e formas, principalmente. E esse lugar é bom pra acumular visões, puta que pariu.
Primeiro, a Annie Leibovitz. É ela – ela sozinha! - por trás daquele monte de fotos incríveis que a gente já conhece da Rolling Stone e da Vanity Fair. Eu não sabia, e adorei achar um ídolo tardio. A irmã dela fez um filme (Annie Leibovitz: Life Through a Lens) que dá conta do tamanho do trabalho da mulher.
E então o Lautrec passou por aqui. Veio com alguns poucos cartazes do Musée d’Orsay, mas lotado de peças de coleções privadas e outras do museu de Osaka. Nem trabalhar perto do Moulin Rouge me fez ver tanto Lautrec junto como nessa exposição. (E o tamanho original é bem diferente de uma xícara).
Depois, o Tokyo Metropolitan Museum of Photography mostrou quem era o Mario Giacomelli e que tipo de mágica se pode fazer abusando de massas pretas em fundo branco. Bonito de ver.
Além dos exemplos “enquadrados”, tem, claro, as cores ambulantes da rua, que seguem me puxando as antenas freneticamente. Sem falar que semana passada foi semana de Japan Fashion Week. Talvez eu fique muda pra sempre.
lundi, mars 10, 2008
Violências particulares
Uma das primeiras coisas que mudam quando muda o entorno é o tipo de violência que habita os nossos fantasmas. Bolsa virada para frente aqui é estilo, andar apressado é pressa mesmo. Em compensação, tem infanticídio, fratricídio, matricídio e, claro, muito suicídio.
Nas minhas primeiras semanas, dois casos de meninos que mataram a mãe estavam sendo investigados. Um deles cortou a barriga da sua e colocou um boneco de plástico dentro. Na semana passada, os funcionários de um hotel encontraram uma família toda morta num quarto, muito provavelmente por obra do pai suicida. A lista desses casos de encher página policial é bem recheada.
Por essas peculiaridades, ser estrangeiro é quase uma garantia anti-morte violenta aqui (um antônimo dos turistas fáceis de Copabana). Sendo uma alienígena saudosa de pai e mãe, me sobram os fantasmas das outras agressões. Os ladrões de calcinha, por exemplo. Não devo pendurar as minhas na sacada, me ensinaram. Correm o risco de, na calada da noite, virarem alvo de alguns poucos obcecados que farejam os varais alheios em busca desses poucos panos.
Um desses tipos, num caso noticiado Japão afora, foi encontrado com mais de mil calcinhas na sua casa. Questionado pela coleção, foi franco: “As tinha para satisfazer o meu desejo sexual”.
Nas minhas primeiras semanas, dois casos de meninos que mataram a mãe estavam sendo investigados. Um deles cortou a barriga da sua e colocou um boneco de plástico dentro. Na semana passada, os funcionários de um hotel encontraram uma família toda morta num quarto, muito provavelmente por obra do pai suicida. A lista desses casos de encher página policial é bem recheada.
Por essas peculiaridades, ser estrangeiro é quase uma garantia anti-morte violenta aqui (um antônimo dos turistas fáceis de Copabana). Sendo uma alienígena saudosa de pai e mãe, me sobram os fantasmas das outras agressões. Os ladrões de calcinha, por exemplo. Não devo pendurar as minhas na sacada, me ensinaram. Correm o risco de, na calada da noite, virarem alvo de alguns poucos obcecados que farejam os varais alheios em busca desses poucos panos.
Um desses tipos, num caso noticiado Japão afora, foi encontrado com mais de mil calcinhas na sua casa. Questionado pela coleção, foi franco: “As tinha para satisfazer o meu desejo sexual”.
dimanche, février 17, 2008
Produtos incríveis
Megalomaníacos em potencial podem cair em confusão no Japão. Alguns produtos são tão pontuais e certeiros que um egocêntrico básico se convence de que a indústria toda pensou, criou e embalou um certo objeto pensando nele. O leque de coisas para facilitar a vida do indivíduo é realmente assombroso aqui. Não consigo parar de pensar no tom confessional que devem ter as reuniões do setor de criação das empresas que fabricam essas pequenas fadas do dia-a-dia.
Sem mais delongas, cito algumas que vi nas últimas semanas.
Calor em sachê
É um sachê, de formatos variados, que emana calor. Simples assim. Sai do plástico, entra em contato com o ar e esquenta. Seco, limpo e rápido. Serve pra aquecer as mãos e os pés neste inverno cruel ou colar nas partes doloridas do corpo. A tecnologia por trás garante uma durabilidade de até 12 horas de quentinho: são grãos de minerais de diferentes composições. Cada um, ao entrar em contato com o oxigênio, leva um tempo para liberar calor. Eles ficam todos misturados e, depois que os mais rápidos fizeram a sua parte, os mais lentos entram em ação, e assim sucessivamente. Eu, que já estava eufórica com o invento, achei que era pegadinha quando vi que, além dos sachês quadrados, existem uns no formato dos dedos dos pés (duas luas pra colocar acima e abaixo dos danados).
Palmilha anti-montaria
Essa vende em loja de 1,99 (100 yen shop). Serve para diminuir o arqueado das pernas. Quem tem os joelhos separados e caminha como se estivesse cavalgando pode, segundo a embalagem, endireitar o andar. O que a palmilha faz é mudar o apoio do pé, já que ela é mais alta na parte lateral externa. Aí fica impossível de a pessoa virar as plantas pra dentro enquanto está de pé. O antes e depois da ilustração promete, com setas vermelhas, que os joelhos tendem a se unir.
Cola para pálpebra
O olho asiático não é só mais alongado que o ocidental. Da sobrancelha até os cílios, a pálpebra é mais reta. Ela não afunda no meio do caminho, com fazem nos nossos olhos. É um detalhe sutil e nada feio. Mesmo assim, se a moça decidir que quer ter a pálpebra marcada, pode. Graças a este produto. A pele do olho afunda e leva a linha dos cílios junto, deixando o olho um pouco mais aberto. A completar com maquiagem, lógico.
Cola para meia
É para as mulheres que usam meia com sapato. Dependendo dos passos dados e do elástico da meia, ela escorrega, todo mundo sabe. Pra amenizar, dá pra puxar ela até o máximo e repetir a operação quando necessário. Ou dá pra comprar esta cola e decidir onde quer que a meia pare, se a 15, 27 ou 33 centímetros do calcanhar.
Sem mais delongas, cito algumas que vi nas últimas semanas.
Calor em sachê
É um sachê, de formatos variados, que emana calor. Simples assim. Sai do plástico, entra em contato com o ar e esquenta. Seco, limpo e rápido. Serve pra aquecer as mãos e os pés neste inverno cruel ou colar nas partes doloridas do corpo. A tecnologia por trás garante uma durabilidade de até 12 horas de quentinho: são grãos de minerais de diferentes composições. Cada um, ao entrar em contato com o oxigênio, leva um tempo para liberar calor. Eles ficam todos misturados e, depois que os mais rápidos fizeram a sua parte, os mais lentos entram em ação, e assim sucessivamente. Eu, que já estava eufórica com o invento, achei que era pegadinha quando vi que, além dos sachês quadrados, existem uns no formato dos dedos dos pés (duas luas pra colocar acima e abaixo dos danados).
Palmilha anti-montaria
Essa vende em loja de 1,99 (100 yen shop). Serve para diminuir o arqueado das pernas. Quem tem os joelhos separados e caminha como se estivesse cavalgando pode, segundo a embalagem, endireitar o andar. O que a palmilha faz é mudar o apoio do pé, já que ela é mais alta na parte lateral externa. Aí fica impossível de a pessoa virar as plantas pra dentro enquanto está de pé. O antes e depois da ilustração promete, com setas vermelhas, que os joelhos tendem a se unir.
Cola para pálpebra
O olho asiático não é só mais alongado que o ocidental. Da sobrancelha até os cílios, a pálpebra é mais reta. Ela não afunda no meio do caminho, com fazem nos nossos olhos. É um detalhe sutil e nada feio. Mesmo assim, se a moça decidir que quer ter a pálpebra marcada, pode. Graças a este produto. A pele do olho afunda e leva a linha dos cílios junto, deixando o olho um pouco mais aberto. A completar com maquiagem, lógico.
Cola para meia
É para as mulheres que usam meia com sapato. Dependendo dos passos dados e do elástico da meia, ela escorrega, todo mundo sabe. Pra amenizar, dá pra puxar ela até o máximo e repetir a operação quando necessário. Ou dá pra comprar esta cola e decidir onde quer que a meia pare, se a 15, 27 ou 33 centímetros do calcanhar.
mardi, janvier 22, 2008
Ginza
Watch your mouth
Sou consciente de ter entrado no espaço aéreo japonês cometendo uma grande gafe. Embarquei com o nariz completamente congestionado e a garganta doendo, apostando numa gripe cavalar pros dias que se seguiriam e, mesmo assim, não privei nenhum dos meus colegas de avião do meu ar usado. Havia aprendido pouco antes de viajar que as máscaras cirúrgicas usadas aqui não servem para proteger as pessoas da poluição, mas sim dos vírus. Eu já sabia, não posso negar. Mas ainda não estava muito claro se era o doente que deveria se tapar ou o saudável. Pelo que aprendi na semana subseqüente, diria que são os dois, ou todos em volta.
A minha gripe não aconteceu, o que me deu um alívio estranho. Eis que, frio vai frio vem, uma das pessoas que mora comigo foi diagnosticada com influenza. Aqui, eles usam essa palavra pra fazer a tal diferença que nós não fazemos entre resfriado (aquela coisa boba) e gripe (a que te derruba).
No início do dia, cruzo com a moça pelo corredor, ela diz que acordou doente e tudo segue normal, cada uma vai trabalhar no seu horário mas, quando eu chego lá, cabum. É um daqueles filmes sobre o ébola, quando o ébola era risco para a humanidade. É aquela, diz um. E outra colega vem me abordar.
Tu mora com a fulana, não? Sim. Pois então, ela está com influenza. Ah, gripe. Pois é, ela disse que não se sentia bem hoje de manhã. Então, mandamos ela ao médico e depois para casa. Ela nem deveria ter vindo. Ahn. Tens que ter muito cuidado em casa. Usa a máscara, hein? Ahn. Não estás sentindo nada? Não-não. Não. Ok, usa a máscara (dedinho em riste).
E assim, antes que eu pudesse escolher, a máscara se tornou uma realidade - com outros comentários sobre a minha geografia virótica feitos no decorrer do dia. Voltei pra casa com um pacote delas na bolsa; abri a porta pra ver um ser mascarado convalescente; percebi na prática que bebericar qualquer coisa tapando o rosto é impossível.
Há algo no ar do qual estamos fugindo aqui. E é a mesma coisa que trocávamos no colégio, em refrigerantes, beijos e escorregadas pra cima do caderno alheio. Tanta confusão que esquecemos que sabemos o nome certo do vírus. É influenza, sempre foi, só que na nossa escala brasileira acabou como o ponto máximo de uma mesma coisa, um belo “gripão”.
Nas regras de convivência japonesas, no entanto, dizemos tintim por tintim da sintomatologia do outro, cuidamos dele com sopas e vitaminas, esperamos a febre passar. Em contrapartida, nos acusamos quando somos atingidos, tal qual um jogo de faroeste infantil. É simples, lógico e tão, mas tão mais eficaz para o comunitário que não calculo mais que duas semanas para eu parar de odiar a máscara.
A minha gripe não aconteceu, o que me deu um alívio estranho. Eis que, frio vai frio vem, uma das pessoas que mora comigo foi diagnosticada com influenza. Aqui, eles usam essa palavra pra fazer a tal diferença que nós não fazemos entre resfriado (aquela coisa boba) e gripe (a que te derruba).
No início do dia, cruzo com a moça pelo corredor, ela diz que acordou doente e tudo segue normal, cada uma vai trabalhar no seu horário mas, quando eu chego lá, cabum. É um daqueles filmes sobre o ébola, quando o ébola era risco para a humanidade. É aquela, diz um. E outra colega vem me abordar.
Tu mora com a fulana, não? Sim. Pois então, ela está com influenza. Ah, gripe. Pois é, ela disse que não se sentia bem hoje de manhã. Então, mandamos ela ao médico e depois para casa. Ela nem deveria ter vindo. Ahn. Tens que ter muito cuidado em casa. Usa a máscara, hein? Ahn. Não estás sentindo nada? Não-não. Não. Ok, usa a máscara (dedinho em riste).
E assim, antes que eu pudesse escolher, a máscara se tornou uma realidade - com outros comentários sobre a minha geografia virótica feitos no decorrer do dia. Voltei pra casa com um pacote delas na bolsa; abri a porta pra ver um ser mascarado convalescente; percebi na prática que bebericar qualquer coisa tapando o rosto é impossível.
Há algo no ar do qual estamos fugindo aqui. E é a mesma coisa que trocávamos no colégio, em refrigerantes, beijos e escorregadas pra cima do caderno alheio. Tanta confusão que esquecemos que sabemos o nome certo do vírus. É influenza, sempre foi, só que na nossa escala brasileira acabou como o ponto máximo de uma mesma coisa, um belo “gripão”.
Nas regras de convivência japonesas, no entanto, dizemos tintim por tintim da sintomatologia do outro, cuidamos dele com sopas e vitaminas, esperamos a febre passar. Em contrapartida, nos acusamos quando somos atingidos, tal qual um jogo de faroeste infantil. É simples, lógico e tão, mas tão mais eficaz para o comunitário que não calculo mais que duas semanas para eu parar de odiar a máscara.
mardi, janvier 15, 2008
Ei-me
Marte é habitado, e muito. E insistir em Marte é uma birra. Tóquio é menos assustadora do que parecia e, claro, tudo o que se pode dizer até agora sobre a inofensividade desta cidade-monstro não é mais do que o equilíbrio relâmpago de uma experiência pessoal.
Quando uma pessoa, uma casa e um trabalho te esperam a coisa fica um pouco menos Marco Pólo. Esse detalhe limpa angústias desnecessárias e viabiliza o que de outra forma não se daria. Eu moro num quarto com tatame. Numa casa que não é nem de perto uma gaveta. Eu caminho até a estação. No caminho, o que pode ser um bairro simples é um cenário. As portas são baixas e as pessoas também, na sua maioria.
É possível comprar shampoo e caminhar até o destino sozinha, tudo sem tatear o ar à procura de uma brecha para dentro de outra dimensão. Uma mudez atroz me persegue. Interlocutores falam e falam suas frases protocolares de serviço mas, até o momento, eu só dou sorrisos e inclinações de tronco, enquanto os gestos e as sacolas entregues me empurram pra fora e pra dentro de portas.
Eu li uma revista Elle que começava na última página. Vi o campeonato de sumô na tevê e os lutadores me parecerem jovens demais, umas criaturas ternas e ingênuas, engordadas. Comi seis peças de um sushi de esteira. Fiz o meu próprio chá verde. Nada, até agora, tem o gosto do que de japonês eu já provei fora daqui. Nem o shoyo.
De passeio após o trabalho, fui levada para conhecer Roppongi (o bairro) e Roppongi Hills (o edifício), do topo do qual se vê quase toda a cidade. Ledo engano a fluidez do elevador até o 52o andar. De lá sai-se desavisado para desabar numa visão absurda. Nunca um mar imenso foi tão detalhado. Nunca o concreto tão vivo. Tóquio é gigante, se mexe e cria forma a partir do nosso olho. Do dedo apontando da minha consorte, a mesma boa amiga que me inicia neste pedaço de mundo, pontes e elevadas se desenhavam a pedido, onde antes não me eram visíveis. Algo como a imagem abaixo. E dizer que no meio disso tudo mora um imperador.
Quando uma pessoa, uma casa e um trabalho te esperam a coisa fica um pouco menos Marco Pólo. Esse detalhe limpa angústias desnecessárias e viabiliza o que de outra forma não se daria. Eu moro num quarto com tatame. Numa casa que não é nem de perto uma gaveta. Eu caminho até a estação. No caminho, o que pode ser um bairro simples é um cenário. As portas são baixas e as pessoas também, na sua maioria.
É possível comprar shampoo e caminhar até o destino sozinha, tudo sem tatear o ar à procura de uma brecha para dentro de outra dimensão. Uma mudez atroz me persegue. Interlocutores falam e falam suas frases protocolares de serviço mas, até o momento, eu só dou sorrisos e inclinações de tronco, enquanto os gestos e as sacolas entregues me empurram pra fora e pra dentro de portas.
Eu li uma revista Elle que começava na última página. Vi o campeonato de sumô na tevê e os lutadores me parecerem jovens demais, umas criaturas ternas e ingênuas, engordadas. Comi seis peças de um sushi de esteira. Fiz o meu próprio chá verde. Nada, até agora, tem o gosto do que de japonês eu já provei fora daqui. Nem o shoyo.
De passeio após o trabalho, fui levada para conhecer Roppongi (o bairro) e Roppongi Hills (o edifício), do topo do qual se vê quase toda a cidade. Ledo engano a fluidez do elevador até o 52o andar. De lá sai-se desavisado para desabar numa visão absurda. Nunca um mar imenso foi tão detalhado. Nunca o concreto tão vivo. Tóquio é gigante, se mexe e cria forma a partir do nosso olho. Do dedo apontando da minha consorte, a mesma boa amiga que me inicia neste pedaço de mundo, pontes e elevadas se desenhavam a pedido, onde antes não me eram visíveis. Algo como a imagem abaixo. E dizer que no meio disso tudo mora um imperador.
lundi, décembre 31, 2007
Daqui pro futuro
Orelha de macaco
Já é sabido e bem comentado que os franceses consomem mais livros por mês do que nós brasileiros. A Gibert Joseph é uma livraria em rede que concentra boa parte do que se pode comprar em Paris no quesito papel. O fato é que toda vez que entrava lá com um título em mente, acabava sentindo um certo incômodo ao ver aquele mar de pocket books espalhados por mesas largas. É uma imensidão de livros pequenos com capas supercoloridas estampando fotos de pessoas e cachorros, traduções do espanhol, traduções do inglês, autores que surgiram há um ano, novidades da rentrée litteraire.
É engraçado, mas meu incômodo vinha da constatação que o mercado literário lá se apresenta ao consumidor um pouco como o mercado de filmes em DVD se apresenta no Brasil. Pessoas compram livros cujo destino é o consumo. Seguem, para isso, o desejo instigado por resenhas, entrevistas, orelhas de livros, indicações de amigos. Pagam relativamente pouco, levam produtos leves e pequenos e, chegando em casa, lêem.
Em algum canto do cérebro isso deve ter me parecido uma calúnia ao santificado todo-poderoso louvável hábito de leitura como ele me foi inculcado em terras brasileiras. Foram anos de anos de “leia mais, o que quer que seja, por favor leia mais e sinta-se um cidadão honorável abrindo um livro em praça pública, nunca comente o que leu, simplesmente diga que lê, que adora ler, que deixa de ver tevê pra ler” que, de alguma forma, tiveram efeito.
A ficha desse pensamento me caiu no mês passado quando, de volta a Porto Alegre, fui à belíssima livraria Cultura. O apelo foi forte, mas bem diferente das montanhas baratas da Gibert Joseph. Os atendentes simpáticos me ajudavam com um sorriso de almas gêmeas, a Cultura naquela arquitetura linda me dava vontade de passar de um setor a outro rodopiando a saia e os livros, eles me pareciam mais elegantes que as roupas nas vitrines do Bourbon Country.
O que eu vou dizer não é novo. Todo mundo sabe que pagar mais de 50 reais por uma edição bonita do Grande Sertão Veredas tem a ver com a estante. Mas ali, olhando os livros que faziam parte da minha lista ainda em aberto, vi como é gritante a diferença entre orelhas feitas por leitores e as feitas por críticos literários. Tentei levar algo da Hilda Hist mas, entre o primeiro livro da prosa pornográfica dela e o início do romance bifurcado – estou inventando os jargões porque não chego a lembrar deles -, não consegui escolher nenhum. Só porque amo o João Gilberto Noll, não recuei diante do “romance de deformação” em oposição ao Bildungsroman que vem a ser O Quieto Animal da Esquina.
Abri mais e mais livros, cada um com a capa mais linda e mais abstrata que o outro, sendo apresentados dentro do panorama literário brasileiro, em contraste ao novo romance velho, fazendo parte de uma trilogia intercalada, prometendo mudar tudo, nossa, que promessa. Nada, enfim, falava do que há pra ler depois da capa. Só o que eu via era que, se quisesse comentar algum deles, teria que rezar pra ser convidada a jantar na casa de algum professor da pós-graduação da UFRGS.
O comprador de livros da Cultura tem que ser, resumindo, um esnobe humilde. Tem que aceitar levar pra casa o que as sumidades indicam mas não explicam e balançar, o mais charmoso que conseguir, a sua sacola até o estacionamento.
É engraçado, mas meu incômodo vinha da constatação que o mercado literário lá se apresenta ao consumidor um pouco como o mercado de filmes em DVD se apresenta no Brasil. Pessoas compram livros cujo destino é o consumo. Seguem, para isso, o desejo instigado por resenhas, entrevistas, orelhas de livros, indicações de amigos. Pagam relativamente pouco, levam produtos leves e pequenos e, chegando em casa, lêem.
Em algum canto do cérebro isso deve ter me parecido uma calúnia ao santificado todo-poderoso louvável hábito de leitura como ele me foi inculcado em terras brasileiras. Foram anos de anos de “leia mais, o que quer que seja, por favor leia mais e sinta-se um cidadão honorável abrindo um livro em praça pública, nunca comente o que leu, simplesmente diga que lê, que adora ler, que deixa de ver tevê pra ler” que, de alguma forma, tiveram efeito.
A ficha desse pensamento me caiu no mês passado quando, de volta a Porto Alegre, fui à belíssima livraria Cultura. O apelo foi forte, mas bem diferente das montanhas baratas da Gibert Joseph. Os atendentes simpáticos me ajudavam com um sorriso de almas gêmeas, a Cultura naquela arquitetura linda me dava vontade de passar de um setor a outro rodopiando a saia e os livros, eles me pareciam mais elegantes que as roupas nas vitrines do Bourbon Country.
O que eu vou dizer não é novo. Todo mundo sabe que pagar mais de 50 reais por uma edição bonita do Grande Sertão Veredas tem a ver com a estante. Mas ali, olhando os livros que faziam parte da minha lista ainda em aberto, vi como é gritante a diferença entre orelhas feitas por leitores e as feitas por críticos literários. Tentei levar algo da Hilda Hist mas, entre o primeiro livro da prosa pornográfica dela e o início do romance bifurcado – estou inventando os jargões porque não chego a lembrar deles -, não consegui escolher nenhum. Só porque amo o João Gilberto Noll, não recuei diante do “romance de deformação” em oposição ao Bildungsroman que vem a ser O Quieto Animal da Esquina.
Abri mais e mais livros, cada um com a capa mais linda e mais abstrata que o outro, sendo apresentados dentro do panorama literário brasileiro, em contraste ao novo romance velho, fazendo parte de uma trilogia intercalada, prometendo mudar tudo, nossa, que promessa. Nada, enfim, falava do que há pra ler depois da capa. Só o que eu via era que, se quisesse comentar algum deles, teria que rezar pra ser convidada a jantar na casa de algum professor da pós-graduação da UFRGS.
O comprador de livros da Cultura tem que ser, resumindo, um esnobe humilde. Tem que aceitar levar pra casa o que as sumidades indicam mas não explicam e balançar, o mais charmoso que conseguir, a sua sacola até o estacionamento.
jeudi, décembre 27, 2007
Lixo
"O silêncio no local onde a menina era velada ontem traduzia a dor da família para a qual o Natal perdeu o sentido". Fim do texto.
É por isso, na minha opinião, que o Correio do Povo não deveria ter sido vendido pra Igreja Universal.
É por isso, na minha opinião, que o Correio do Povo não deveria ter sido vendido pra Igreja Universal.
mardi, décembre 18, 2007
Notícias do outro lado do charco, vistas de dentro
O Uruguai prendeu um dos seus ditadores ontem, o Gregorio "Goyo" Alvarez (1981-1985), junto a dois outros militares. Esta que segue é uma visão local.
Queridos todos: espero que se encuentren muy bien.
Tal vez haya llegado a POA la noticia de que el Goyo Alvarez está en cana, junto con los demás represores.
Ayer habíamos quedado de encontrarnos en casa con mis compañeras de trabajo y abrimos una botellita de champán para festejar por la justicia.
Pueden creeer que hace como 2 semanas venía caminando por Ricaldoni y me lo cruzo. Iba de lo más campante a tirar la basura a la volqueta. Nadie asediándolo, sin guardaespaldas, nadie haciéndole escrache...pero le llegó la hora, salió en la tv la foto de fichado de frente y perfil con el nº.
La radio que escuchamos en casa, pasó el procesamiento como si fuera un comunicado de las fuerzas armadas de esa época con la musiquita (se acuerdan ¿no? Anita y Lê prenguntenle a vuestros padres). Dieron incluso el alias "Goyo" y "Petiso".
La gente se juntó en la Plaza Libertad y cantaron murgas, cantantes populares, etc. En fin esto recién empieza.
El Frente votó en su congreso apoyar la juntada de firmas para derogar la ley de caducidad. Se va a llegar así que van a haber más procesamientos y todo bajo la égida de la justicia, no bajo tribunales militares.
El asunto fue que el bocón admitió verbalmente y firmó un documento en 1979 que él se hacía responsable por eventuales desbordes de su mando (los desbordes que pudieron probarse hasta ahora fueron 40 desaparecidos). Dijo que era mejor morir de espaldas y no de rodillas y que si lo mandaban en cana iba a decir la verdad, y hasta ahora que estuvo haciendo, diciendo mentiras?. Es insólito...
Besitos para todos,
Queridos todos: espero que se encuentren muy bien.
Tal vez haya llegado a POA la noticia de que el Goyo Alvarez está en cana, junto con los demás represores.
Ayer habíamos quedado de encontrarnos en casa con mis compañeras de trabajo y abrimos una botellita de champán para festejar por la justicia.
Pueden creeer que hace como 2 semanas venía caminando por Ricaldoni y me lo cruzo. Iba de lo más campante a tirar la basura a la volqueta. Nadie asediándolo, sin guardaespaldas, nadie haciéndole escrache...pero le llegó la hora, salió en la tv la foto de fichado de frente y perfil con el nº.
La radio que escuchamos en casa, pasó el procesamiento como si fuera un comunicado de las fuerzas armadas de esa época con la musiquita (se acuerdan ¿no? Anita y Lê prenguntenle a vuestros padres). Dieron incluso el alias "Goyo" y "Petiso".
La gente se juntó en la Plaza Libertad y cantaron murgas, cantantes populares, etc. En fin esto recién empieza.
El Frente votó en su congreso apoyar la juntada de firmas para derogar la ley de caducidad. Se va a llegar así que van a haber más procesamientos y todo bajo la égida de la justicia, no bajo tribunales militares.
El asunto fue que el bocón admitió verbalmente y firmó un documento en 1979 que él se hacía responsable por eventuales desbordes de su mando (los desbordes que pudieron probarse hasta ahora fueron 40 desaparecidos). Dijo que era mejor morir de espaldas y no de rodillas y que si lo mandaban en cana iba a decir la verdad, y hasta ahora que estuvo haciendo, diciendo mentiras?. Es insólito...
Besitos para todos,
Non de dieu!
mercredi, décembre 05, 2007
Pensando em Dionisio
Ele ficou sabendo hoje que vai ter um irmão. Ele precisava dormir; antes das 21h, de preferência. Mas ele ainda morava longe dos salários-hora e tempos de metrô. Eu o apertei do mesmo jeito que apertei um corpo crescido no fim de semana, em volta da barriga, mas mesmo assim ele não dormiu.
Aqueles olhos vidrados no teto, com um suspiro de tempo em tempo para provar que tentava exorcizar a insônia, me deixavam com um ar ridículo. Eu estava fazendo a conta de quanto os pais teriam que me pagar a mais pelo atraso fisiológico e pensando na sola do meu pé quando eu ganhasse o caminho de casa com o sapato mal escolhido desta manhã.
Ele estava chupando cada vez mais forte a chupeta e quase arrancando uma mecha dos meus cabelos. Ele estava pensando naquilo. Como um divorciado de 40 anos. Uma mãe que acaba de perder o namorado para a filha. Ou uma criança de três anos que descobre que vai ser irmão. Ele fechava, mas os olhos não eram tão ingênuos. Um dia, uma noite, uma hora, uma véspera de trabalho. Só ele tinha a real dimensão da vida naquele momento mas o meu trabalho era inculcar um calendário por cima da sua lucidez.
Aqueles olhos vidrados no teto, com um suspiro de tempo em tempo para provar que tentava exorcizar a insônia, me deixavam com um ar ridículo. Eu estava fazendo a conta de quanto os pais teriam que me pagar a mais pelo atraso fisiológico e pensando na sola do meu pé quando eu ganhasse o caminho de casa com o sapato mal escolhido desta manhã.
Ele estava chupando cada vez mais forte a chupeta e quase arrancando uma mecha dos meus cabelos. Ele estava pensando naquilo. Como um divorciado de 40 anos. Uma mãe que acaba de perder o namorado para a filha. Ou uma criança de três anos que descobre que vai ser irmão. Ele fechava, mas os olhos não eram tão ingênuos. Um dia, uma noite, uma hora, uma véspera de trabalho. Só ele tinha a real dimensão da vida naquele momento mas o meu trabalho era inculcar um calendário por cima da sua lucidez.
Inscription à :
Articles (Atom)
