lundi, mars 10, 2008

Violências particulares

Uma das primeiras coisas que mudam quando muda o entorno é o tipo de violência que habita os nossos fantasmas. Bolsa virada para frente aqui é estilo, andar apressado é pressa mesmo. Em compensação, tem infanticídio, fratricídio, matricídio e, claro, muito suicídio.
Nas minhas primeiras semanas, dois casos de meninos que mataram a mãe estavam sendo investigados. Um deles cortou a barriga da sua e colocou um boneco de plástico dentro. Na semana passada, os funcionários de um hotel encontraram uma família toda morta num quarto, muito provavelmente por obra do pai suicida. A lista desses casos de encher página policial é bem recheada.
Por essas peculiaridades, ser estrangeiro é quase uma garantia anti-morte violenta aqui (um antônimo dos turistas fáceis de Copabana). Sendo uma alienígena saudosa de pai e mãe, me sobram os fantasmas das outras agressões. Os ladrões de calcinha, por exemplo. Não devo pendurar as minhas na sacada, me ensinaram. Correm o risco de, na calada da noite, virarem alvo de alguns poucos obcecados que farejam os varais alheios em busca desses poucos panos.
Um desses tipos, num caso noticiado Japão afora, foi encontrado com mais de mil calcinhas na sua casa. Questionado pela coleção, foi franco: “As tinha para satisfazer o meu desejo sexual”.

dimanche, février 17, 2008

Produtos incríveis

Megalomaníacos em potencial podem cair em confusão no Japão. Alguns produtos são tão pontuais e certeiros que um egocêntrico básico se convence de que a indústria toda pensou, criou e embalou um certo objeto pensando nele. O leque de coisas para facilitar a vida do indivíduo é realmente assombroso aqui. Não consigo parar de pensar no tom confessional que devem ter as reuniões do setor de criação das empresas que fabricam essas pequenas fadas do dia-a-dia.
Sem mais delongas, cito algumas que vi nas últimas semanas.

Calor em sachê
É um sachê, de formatos variados, que emana calor. Simples assim. Sai do plástico, entra em contato com o ar e esquenta. Seco, limpo e rápido. Serve pra aquecer as mãos e os pés neste inverno cruel ou colar nas partes doloridas do corpo. A tecnologia por trás garante uma durabilidade de até 12 horas de quentinho: são grãos de minerais de diferentes composições. Cada um, ao entrar em contato com o oxigênio, leva um tempo para liberar calor. Eles ficam todos misturados e, depois que os mais rápidos fizeram a sua parte, os mais lentos entram em ação, e assim sucessivamente. Eu, que já estava eufórica com o invento, achei que era pegadinha quando vi que, além dos sachês quadrados, existem uns no formato dos dedos dos pés (duas luas pra colocar acima e abaixo dos danados).

Palmilha anti-montaria
Essa vende em loja de 1,99 (100 yen shop). Serve para diminuir o arqueado das pernas. Quem tem os joelhos separados e caminha como se estivesse cavalgando pode, segundo a embalagem, endireitar o andar. O que a palmilha faz é mudar o apoio do pé, já que ela é mais alta na parte lateral externa. Aí fica impossível de a pessoa virar as plantas pra dentro enquanto está de pé. O antes e depois da ilustração promete, com setas vermelhas, que os joelhos tendem a se unir.

Cola para pálpebra
O olho asiático não é só mais alongado que o ocidental. Da sobrancelha até os cílios, a pálpebra é mais reta. Ela não afunda no meio do caminho, com fazem nos nossos olhos. É um detalhe sutil e nada feio. Mesmo assim, se a moça decidir que quer ter a pálpebra marcada, pode. Graças a este produto. A pele do olho afunda e leva a linha dos cílios junto, deixando o olho um pouco mais aberto. A completar com maquiagem, lógico.

Cola para meia
É para as mulheres que usam meia com sapato. Dependendo dos passos dados e do elástico da meia, ela escorrega, todo mundo sabe. Pra amenizar, dá pra puxar ela até o máximo e repetir a operação quando necessário. Ou dá pra comprar esta cola e decidir onde quer que a meia pare, se a 15, 27 ou 33 centímetros do calcanhar.

mardi, janvier 22, 2008

Ginza

Sim, o metro quadrado mais caro do mundo. Um edifício inteiro só pra Burberry, outro pra Gucci, outro pra Dior.

Watch your mouth

Sou consciente de ter entrado no espaço aéreo japonês cometendo uma grande gafe. Embarquei com o nariz completamente congestionado e a garganta doendo, apostando numa gripe cavalar pros dias que se seguiriam e, mesmo assim, não privei nenhum dos meus colegas de avião do meu ar usado. Havia aprendido pouco antes de viajar que as máscaras cirúrgicas usadas aqui não servem para proteger as pessoas da poluição, mas sim dos vírus. Eu já sabia, não posso negar. Mas ainda não estava muito claro se era o doente que deveria se tapar ou o saudável. Pelo que aprendi na semana subseqüente, diria que são os dois, ou todos em volta.
A minha gripe não aconteceu, o que me deu um alívio estranho. Eis que, frio vai frio vem, uma das pessoas que mora comigo foi diagnosticada com influenza. Aqui, eles usam essa palavra pra fazer a tal diferença que nós não fazemos entre resfriado (aquela coisa boba) e gripe (a que te derruba).
No início do dia, cruzo com a moça pelo corredor, ela diz que acordou doente e tudo segue normal, cada uma vai trabalhar no seu horário mas, quando eu chego lá, cabum. É um daqueles filmes sobre o ébola, quando o ébola era risco para a humanidade. É aquela, diz um. E outra colega vem me abordar.
Tu mora com a fulana, não? Sim. Pois então, ela está com influenza. Ah, gripe. Pois é, ela disse que não se sentia bem hoje de manhã. Então, mandamos ela ao médico e depois para casa. Ela nem deveria ter vindo. Ahn. Tens que ter muito cuidado em casa. Usa a máscara, hein? Ahn. Não estás sentindo nada? Não-não. Não. Ok, usa a máscara (dedinho em riste).
E assim, antes que eu pudesse escolher, a máscara se tornou uma realidade - com outros comentários sobre a minha geografia virótica feitos no decorrer do dia. Voltei pra casa com um pacote delas na bolsa; abri a porta pra ver um ser mascarado convalescente; percebi na prática que bebericar qualquer coisa tapando o rosto é impossível.
Há algo no ar do qual estamos fugindo aqui. E é a mesma coisa que trocávamos no colégio, em refrigerantes, beijos e escorregadas pra cima do caderno alheio. Tanta confusão que esquecemos que sabemos o nome certo do vírus. É influenza, sempre foi, só que na nossa escala brasileira acabou como o ponto máximo de uma mesma coisa, um belo “gripão”.
Nas regras de convivência japonesas, no entanto, dizemos tintim por tintim da sintomatologia do outro, cuidamos dele com sopas e vitaminas, esperamos a febre passar. Em contrapartida, nos acusamos quando somos atingidos, tal qual um jogo de faroeste infantil. É simples, lógico e tão, mas tão mais eficaz para o comunitário que não calculo mais que duas semanas para eu parar de odiar a máscara.

mardi, janvier 15, 2008

Ei-me

Marte é habitado, e muito. E insistir em Marte é uma birra. Tóquio é menos assustadora do que parecia e, claro, tudo o que se pode dizer até agora sobre a inofensividade desta cidade-monstro não é mais do que o equilíbrio relâmpago de uma experiência pessoal.
Quando uma pessoa, uma casa e um trabalho te esperam a coisa fica um pouco menos Marco Pólo. Esse detalhe limpa angústias desnecessárias e viabiliza o que de outra forma não se daria. Eu moro num quarto com tatame. Numa casa que não é nem de perto uma gaveta. Eu caminho até a estação. No caminho, o que pode ser um bairro simples é um cenário. As portas são baixas e as pessoas também, na sua maioria.
É possível comprar shampoo e caminhar até o destino sozinha, tudo sem tatear o ar à procura de uma brecha para dentro de outra dimensão. Uma mudez atroz me persegue. Interlocutores falam e falam suas frases protocolares de serviço mas, até o momento, eu só dou sorrisos e inclinações de tronco, enquanto os gestos e as sacolas entregues me empurram pra fora e pra dentro de portas.
Eu li uma revista Elle que começava na última página. Vi o campeonato de sumô na tevê e os lutadores me parecerem jovens demais, umas criaturas ternas e ingênuas, engordadas. Comi seis peças de um sushi de esteira. Fiz o meu próprio chá verde. Nada, até agora, tem o gosto do que de japonês eu já provei fora daqui. Nem o shoyo.
De passeio após o trabalho, fui levada para conhecer Roppongi (o bairro) e Roppongi Hills (o edifício), do topo do qual se vê quase toda a cidade. Ledo engano a fluidez do elevador até o 52o andar. De lá sai-se desavisado para desabar numa visão absurda. Nunca um mar imenso foi tão detalhado. Nunca o concreto tão vivo. Tóquio é gigante, se mexe e cria forma a partir do nosso olho. Do dedo apontando da minha consorte, a mesma boa amiga que me inicia neste pedaço de mundo, pontes e elevadas se desenhavam a pedido, onde antes não me eram visíveis. Algo como a imagem abaixo. E dizer que no meio disso tudo mora um imperador.

lundi, décembre 31, 2007

Daqui pro futuro

Recebi notícias de 2008 há pouco, de lá onde ele já começou. Parece que este ano vai ser bem divertido e o número da aposta é uma dezena: 81.

Orelha de macaco

Já é sabido e bem comentado que os franceses consomem mais livros por mês do que nós brasileiros. A Gibert Joseph é uma livraria em rede que concentra boa parte do que se pode comprar em Paris no quesito papel. O fato é que toda vez que entrava lá com um título em mente, acabava sentindo um certo incômodo ao ver aquele mar de pocket books espalhados por mesas largas. É uma imensidão de livros pequenos com capas supercoloridas estampando fotos de pessoas e cachorros, traduções do espanhol, traduções do inglês, autores que surgiram há um ano, novidades da rentrée litteraire.
É engraçado, mas meu incômodo vinha da constatação que o mercado literário lá se apresenta ao consumidor um pouco como o mercado de filmes em DVD se apresenta no Brasil. Pessoas compram livros cujo destino é o consumo. Seguem, para isso, o desejo instigado por resenhas, entrevistas, orelhas de livros, indicações de amigos. Pagam relativamente pouco, levam produtos leves e pequenos e, chegando em casa, lêem.
Em algum canto do cérebro isso deve ter me parecido uma calúnia ao santificado todo-poderoso louvável hábito de leitura como ele me foi inculcado em terras brasileiras. Foram anos de anos de “leia mais, o que quer que seja, por favor leia mais e sinta-se um cidadão honorável abrindo um livro em praça pública, nunca comente o que leu, simplesmente diga que lê, que adora ler, que deixa de ver tevê pra ler” que, de alguma forma, tiveram efeito.
A ficha desse pensamento me caiu no mês passado quando, de volta a Porto Alegre, fui à belíssima livraria Cultura. O apelo foi forte, mas bem diferente das montanhas baratas da Gibert Joseph. Os atendentes simpáticos me ajudavam com um sorriso de almas gêmeas, a Cultura naquela arquitetura linda me dava vontade de passar de um setor a outro rodopiando a saia e os livros, eles me pareciam mais elegantes que as roupas nas vitrines do Bourbon Country.
O que eu vou dizer não é novo. Todo mundo sabe que pagar mais de 50 reais por uma edição bonita do Grande Sertão Veredas tem a ver com a estante. Mas ali, olhando os livros que faziam parte da minha lista ainda em aberto, vi como é gritante a diferença entre orelhas feitas por leitores e as feitas por críticos literários. Tentei levar algo da Hilda Hist mas, entre o primeiro livro da prosa pornográfica dela e o início do romance bifurcado – estou inventando os jargões porque não chego a lembrar deles -, não consegui escolher nenhum. Só porque amo o João Gilberto Noll, não recuei diante do “romance de deformação” em oposição ao Bildungsroman que vem a ser O Quieto Animal da Esquina.
Abri mais e mais livros, cada um com a capa mais linda e mais abstrata que o outro, sendo apresentados dentro do panorama literário brasileiro, em contraste ao novo romance velho, fazendo parte de uma trilogia intercalada, prometendo mudar tudo, nossa, que promessa. Nada, enfim, falava do que há pra ler depois da capa. Só o que eu via era que, se quisesse comentar algum deles, teria que rezar pra ser convidada a jantar na casa de algum professor da pós-graduação da UFRGS.
O comprador de livros da Cultura tem que ser, resumindo, um esnobe humilde. Tem que aceitar levar pra casa o que as sumidades indicam mas não explicam e balançar, o mais charmoso que conseguir, a sua sacola até o estacionamento.

jeudi, décembre 27, 2007

Lixo

"O silêncio no local onde a menina era velada ontem traduzia a dor da família para a qual o Natal perdeu o sentido". Fim do texto.
É por isso, na minha opinião, que o Correio do Povo não deveria ter sido vendido pra Igreja Universal.

mardi, décembre 18, 2007

Notícias do outro lado do charco, vistas de dentro

O Uruguai prendeu um dos seus ditadores ontem, o Gregorio "Goyo" Alvarez (1981-1985), junto a dois outros militares. Esta que segue é uma visão local.

Queridos todos: espero que se encuentren muy bien.
Tal vez haya llegado a POA la noticia de que el Goyo Alvarez está en cana, junto con los demás represores.
Ayer habíamos quedado de encontrarnos en casa con mis compañeras de trabajo y abrimos una botellita de champán para festejar por la justicia.
Pueden creeer que hace como 2 semanas venía caminando por Ricaldoni y me lo cruzo. Iba de lo más campante a tirar la basura a la volqueta. Nadie asediándolo, sin guardaespaldas, nadie haciéndole escrache...pero le llegó la hora, salió en la tv la foto de fichado de frente y perfil con el nº.
La radio que escuchamos en casa, pasó el procesamiento como si fuera un comunicado de las fuerzas armadas de esa época con la musiquita (se acuerdan ¿no? Anita y Lê prenguntenle a vuestros padres). Dieron incluso el alias "Goyo" y "Petiso".
La gente se juntó en la Plaza Libertad y cantaron murgas, cantantes populares, etc. En fin esto recién empieza.
El Frente votó en su congreso apoyar la juntada de firmas para derogar la ley de caducidad. Se va a llegar así que van a haber más procesamientos y todo bajo la égida de la justicia, no bajo tribunales militares.
El asunto fue que el bocón admitió verbalmente y firmó un documento en 1979 que él se hacía responsable por eventuales desbordes de su mando (los desbordes que pudieron probarse hasta ahora fueron 40 desaparecidos). Dijo que era mejor morir de espaldas y no de rodillas y que si lo mandaban en cana iba a decir la verdad, y hasta ahora que estuvo haciendo, diciendo mentiras?. Es insólito...
Besitos para todos,

Non de dieu!


C'est quoi cette horreur?!

Chérie, ta pauvre maman se dit en soupirant,
"Qu'ais-je fait pour cela ? Est-ce de ma faute à moi,
Si ma fille est comme ça ?"!

Carla, amiga. Vamos deixar na conta do teu ecletismo.
Recobre sentidos.

mercredi, décembre 05, 2007

Pensando em Dionisio

Ele ficou sabendo hoje que vai ter um irmão. Ele precisava dormir; antes das 21h, de preferência. Mas ele ainda morava longe dos salários-hora e tempos de metrô. Eu o apertei do mesmo jeito que apertei um corpo crescido no fim de semana, em volta da barriga, mas mesmo assim ele não dormiu.
Aqueles olhos vidrados no teto, com um suspiro de tempo em tempo para provar que tentava exorcizar a insônia, me deixavam com um ar ridículo. Eu estava fazendo a conta de quanto os pais teriam que me pagar a mais pelo atraso fisiológico e pensando na sola do meu pé quando eu ganhasse o caminho de casa com o sapato mal escolhido desta manhã.
Ele estava chupando cada vez mais forte a chupeta e quase arrancando uma mecha dos meus cabelos. Ele estava pensando naquilo. Como um divorciado de 40 anos. Uma mãe que acaba de perder o namorado para a filha. Ou uma criança de três anos que descobre que vai ser irmão. Ele fechava, mas os olhos não eram tão ingênuos. Um dia, uma noite, uma hora, uma véspera de trabalho. Só ele tinha a real dimensão da vida naquele momento mas o meu trabalho era inculcar um calendário por cima da sua lucidez.

vendredi, août 31, 2007

Lord's gonna get us back


Não se pode esperar nada mais autêntico de um caipira do que ofuscamento frente as luzes da cidade. Nessa mais nova prova de pureza, os Kings of Leon subiram no palco do Rock en Seine ainda mais urban wear do que no show do dia 26 junho, no Bataclan. Cabelo curto e cara (quase) limpa, Caleb Followill não tem mais nada a ver com aquele filho de pastor evangélico que começou uma banda com os irmãos e foi assaltado pela fama repentina. Nem uma sombra daquele bigode chicano. Só Nathan, o baterista, conserva as madeixas compridas. Perdeu, no entanto, toda a ingenuidade e toma Heineken de canudinho entre uma martelada e outra.
Dos outros dois, menos se pode pedir. Mais novos e menos carismáticos, são quase uns italianos de tão engomados. Ainda em pós-puberdade, usam uns dois números a menos de calça – slim pants, claro. O clã KOL acumulou tanto mel nesses últimos quatro anos de pura vida de rock que até o hold quando sobe no palco é alvo de gritos femininos. Vale dizer que ele não destoa do fenótipo Followill, sendo provavelmente mais um primo.
Essa decepção estética é, claro, só um detalhe que quase ajuda a gostar mais da banda, pela sua trajetória sincera. O básico, o motivo de encabeçarem a minha lista há algum tempo, é que eles são muito bons. Caleb continua cantando rasgado e uivando histórias de meninas fáceis demais e noites que terminam de manhã. Estava rouco no domingo 26, o do Rock en Seine, e pediu desculpas. Charme.
Sim, eles ficaram mais sombrios e deram uma guinada eletrônica no último disco. Há músicas mais lentas e uma pitada de letras “estou ficando velho”. Que banda de rock não o faz? O negócio é que, incapazes de se desfazerem do country e do folk que os formou, estão longe de fazer melodias moles.
Assistir a um show do KOL é parte essencial da existência deles no mundo. Primeiro porque o que se ouve nos discos é o que eles tocam – e não mixagens e pós-produção –, e isso deixa a experiência ao vivo muito forte. Segundo porque, filhos da época que são, os Followill existem para nos fazer pular e acompanhar cada acorde e franzida de nariz de perto.
Vida longa aos Followill, que ainda vão receber muita adolescente contente em camarim, maltratar jovens esposas e criar mais caldo pra sofrimento acompanhado de bateria.

lundi, août 20, 2007

Menina a caminho (ou A hipótese de se envelhecer em números)


Cada vez que um pote de iogurte termina eu penso se escolhi a profissão certa. Se escolhi a vida certa. Eu tenho 23 anos e moro num país estrangeiro. Mas cheguei com malas minhas, sem pisar em terra virgem nem temer pelo futuro, porque eu simplesmente cheguei nesse meu estado de vida, que eu pretendo narrar aqui, que é mole como um cetim, que não mexe montanhas mesmo que mude uma vida inteira, que é invariavelmente leve.
De onde eu venho não há histórias cicatrizadas, mortos que eu tenha matado. E todas as pessoas que me formam pensam que eu deveria estar aqui, o que me traz a esta situação onde não há como fingir que o me ocorre é trágico, apesar de ser o que de mais grave me ocorre.
Eu não me mexo muito rapidamente, e quando o faço não é senão por deliberada proposta. Não há em mim, como os filmes mostram existir em outras pessoas, um tempo e uma urgência ligados à ação, chegada mesmo quando não é chamada, criando rotinas invisíveis e ciclos que aparecem depois de anos, em uma mesa onde se toma um chá com velhos conhecidos.
A vida a mim custa ser vivida, e não é porque ela me entristeça.
Ela apenas me custa.
Preciso muito das pessoas para me guiar nas quantidades de sono e desespero que são usuais no meu entorno. Eu procuro sempre, com isso, não destoar. Na maioria das vezes, consigo, apesar de ter de continuar me procurando em outros lugares, já que vivo uma vida de imitação.
Desde que cheguei neste país estrangeiro, estou esperando que a vida comece a sua marcha íngrime, porque eu ainda não me desfiz de crer que exista uma marcha. Eu, até agora, só conheci planos e começos. Nutro uma sincera curiosidade por meios e finais.

mercredi, août 15, 2007

lundi, août 13, 2007

Filha, seja exótica de trás pra frente, sempre

Começa assim. Um dia numa festa, não tantos meses depois da minha chegada, me perguntaram, não tão ineditamente, o que eu estava fazendo aqui. Não no sentido literal da pergunta, mas num esboço de elogio ao exótico país que eu tinha, assim inexplicavelmente, largado. Mais sagaz do que fiquei com outros meses de experiência, respondi: “Contraste, peut-être”.
A minha companhia achou a resposta brilhante – a saber não por uma reação, mas pelo tardio e específico comentário, ao qual não tive nada a responder. Ela riu, a moça que tinha feito a pergunta, e riram os outros cinco que estavam neste domínio sonoro e não no seguinte. E eu ganhei tempo para entornar mais um pouco do meu copo de champanhe, o que se pode fazer com elegância quando se é uma menina e se sabe olhar enviesado em simultâneo.
No dia seguinte ela ia para São Paulo, a menina que tinha feito a pergunta (j’adoooore, uuhh. Uhúu!). Não é a mulher exatamente que fica ridícula ao se empolgar, mas a assimetria com que duas pessoas se projetam a um lugar fisicamente comum que cria a sensação de que uma entre ambas está deslocada.
Mas concordei. Gosto muito de São Paulo, falei. Mesmo que não, não costume sair da minha cidade para encontrar lá a chama da vida e a felicidade do acaso interpessoal. Não falei. Seguiu-se a festa. Como a maioria dos convivas não detinha, como eu, a insígnia de pertencer a um lugar tão longínquo quanto atraente, as conversas flutuavam em torno de allers-retours recentes. Ela morava em Berlim, a pessoa mais interessante da festa. Mas não era de lá, evidentemente. Era daqui. Vivia de cinema, com os seus cabelos totalmente descoloridos, e estava contente com o último trabalho. Foi a única pessoa que lamentei nunca mais ver, quando no dia seguinte decidi que champanhes atrás de digicodes não valiam uma péssima foda.
Era a cama da dona da casa onde estávamos – sentados e travestidos. Da pilha de livros de bolso encostada na parede saíram alguns diálogos básicos. Eram clássicos filosóficos, pois a dona era doutoranda em filosofia, mesmo que maquilada. Eram a massa, essas trocas de frase, mesmo que a massa se vista de polêmica. O correspondente a preços de carro e histórias de chefe. O teste-testando para ver se falávamos a mesma língua. Mas o mais interessante, sempre, eram as histórias da descolorida. Mesmo que ela explicasse nada além do que a incompletude pré-maternidade ou a beleza de se estar em Paris há poucos dias depois de uma longa ausência. Eu havia chegado à minha São Paulo e estava adorando a fumaça.
(segue)