mercredi, mai 23, 2007
dimanche, mai 20, 2007
___________16.maio.2007
Minha tia Sara morreu. Da última vez em que a vi, só fiz suposições. Cheguei a supor que a nossa visita a incomodava. Que ela se sentiria mais cômoda em companhia da senhora encarregada de cuidar dela. Eu quis muito passar a mão no rosto dela quando soube, hoje de manhã, que ela dormira sem acordar.
Uma morte tão calminha. Meu pai disse “não sofrida”, no email em que me enviou. Eu aqui perdida pelo fuso horário me perguntei se era uma sesta ou o sono da noite. E me lembrei do quão sofrida foi a morte da mãe do meu pai.
Sem que isso a reduza a um afeto secundário, Tia Sara é parte de um binômio. A outra parte é Vó Célia, morta há 13 anos. Separadas por mais de dez anos dentro de uma escala de quinze filhos, elas poderiam ter sido apenas um par de irmãs. Duas viúvas, mães de dois filhos únicos. Vó Célia era mais orgulhosa, mas era Tia Sara quem ganhara a pior nora. Um equilíbrio randômico.
O grande truque desta notícia é ter me feito pensar em constância, ao invés de liberdade. A morte dela, que é também o fim do binômio, não me ensinou a fazer o que eu bem entender a partir deste instante, por que a vida é curta (a vida é longa, os motivos são outros).
Existia uma coisa na Tia Sara que a fez dizer um piada no meio daquela confusão de rostos. Ela estava tão perdida, e perdidos nós também, sem saber se a frase ia terminar ou se ela queria mudar de posição. E, mesmo assim, ela fez, quando conseguiu se expressar, uma tirada cômica. E todos nós pescamos aquele fio jogado do fundo da névoa dela, e respiramos, para além do nosso alívio, pra dizer sem dizer “nós te reconhecemos”.
Com mais de dez anos de diferença (os que separam as mortes, não os nascimentos), minha vó jogava um fio parecido, do meio da dor intransigente. E quando ela retrucava um médico descuidado e era firme mesmo tremendo, nós a reconhecíamos, até o último dia, em que eu fui embora do hospital e ela também.
Elas tinham rostos muito diferentes, mas mãos idênticas. E jogavam baralho durante um verão inteiro em Garopaba. E gostavam de comer churrasco de ovelha, e escreviam cartas uma pra outra em letras corridas e bonitas. E faziam tantas outras coisas pontuais, momentâneas, que no entanto ecoam na minha cabeça me obrigando a empregar o imperfeito.
Eu gostaria de encostar na mão dela. Principalmente porque os dedos tinham a geminha marcada, como se tivessem ficado presos por um prendedor de roupa. E eram quentinhos, sempre quentinhos. Ela estava à beira de perder a constância. E perdeu.
Uma morte tão calminha. Meu pai disse “não sofrida”, no email em que me enviou. Eu aqui perdida pelo fuso horário me perguntei se era uma sesta ou o sono da noite. E me lembrei do quão sofrida foi a morte da mãe do meu pai.
Sem que isso a reduza a um afeto secundário, Tia Sara é parte de um binômio. A outra parte é Vó Célia, morta há 13 anos. Separadas por mais de dez anos dentro de uma escala de quinze filhos, elas poderiam ter sido apenas um par de irmãs. Duas viúvas, mães de dois filhos únicos. Vó Célia era mais orgulhosa, mas era Tia Sara quem ganhara a pior nora. Um equilíbrio randômico.
O grande truque desta notícia é ter me feito pensar em constância, ao invés de liberdade. A morte dela, que é também o fim do binômio, não me ensinou a fazer o que eu bem entender a partir deste instante, por que a vida é curta (a vida é longa, os motivos são outros).
Existia uma coisa na Tia Sara que a fez dizer um piada no meio daquela confusão de rostos. Ela estava tão perdida, e perdidos nós também, sem saber se a frase ia terminar ou se ela queria mudar de posição. E, mesmo assim, ela fez, quando conseguiu se expressar, uma tirada cômica. E todos nós pescamos aquele fio jogado do fundo da névoa dela, e respiramos, para além do nosso alívio, pra dizer sem dizer “nós te reconhecemos”.
Com mais de dez anos de diferença (os que separam as mortes, não os nascimentos), minha vó jogava um fio parecido, do meio da dor intransigente. E quando ela retrucava um médico descuidado e era firme mesmo tremendo, nós a reconhecíamos, até o último dia, em que eu fui embora do hospital e ela também.
Elas tinham rostos muito diferentes, mas mãos idênticas. E jogavam baralho durante um verão inteiro em Garopaba. E gostavam de comer churrasco de ovelha, e escreviam cartas uma pra outra em letras corridas e bonitas. E faziam tantas outras coisas pontuais, momentâneas, que no entanto ecoam na minha cabeça me obrigando a empregar o imperfeito.
Eu gostaria de encostar na mão dela. Principalmente porque os dedos tinham a geminha marcada, como se tivessem ficado presos por um prendedor de roupa. E eram quentinhos, sempre quentinhos. Ela estava à beira de perder a constância. E perdeu.
vendredi, mai 11, 2007
No need for tatoos
Tenho lido sobre o Brasil. Livros que já tinha começado antes, sem muito equilíbrio neuronal para com eles lidar. Tenho encontrado idéias ótimas, mesmo que “encontrar” seja um pouco deslocado pra citar obras de base lidas à meia idade.
Um exemplo de idéia surpreendente, da qual apresento aqui apenas a ilustração, é a importância da sífilis - na época da colônia - na formação do brasileiro:
“O filho do senhor de engenho se contaminava, quase brincando, com as negras e mulatas, ao perder precocemente sua virgindade, aos 12 ou 13 anos. Pois, a essa idade, ele já era um homem. Era ridicularizado se ainda não tivesse conhecido as mulheres; ironizado se não carregasse no corpo traços da sífilis. Martius [viajante do início do séc. 19] nota que o brasileiro porta com ostentação as cicatrizes da sífilis como se fossem cicatrizes de guerra”.
Um exemplo de idéia surpreendente, da qual apresento aqui apenas a ilustração, é a importância da sífilis - na época da colônia - na formação do brasileiro:
“O filho do senhor de engenho se contaminava, quase brincando, com as negras e mulatas, ao perder precocemente sua virgindade, aos 12 ou 13 anos. Pois, a essa idade, ele já era um homem. Era ridicularizado se ainda não tivesse conhecido as mulheres; ironizado se não carregasse no corpo traços da sífilis. Martius [viajante do início do séc. 19] nota que o brasileiro porta com ostentação as cicatrizes da sífilis como se fossem cicatrizes de guerra”.
lundi, avril 30, 2007
vendredi, avril 27, 2007
Brega é muito bonito
Contente com a Internet por disponibilizar Tudo o que eu tenho e Blá blá blá, pra clicar quantas vezes quiser.
dimanche, avril 22, 2007
(Eu não estou ecoando aquele e-mail, não é sobre isso)
Sempre parei pra pensar em exposição; e o degradê de seus contrários: discrição, proteção, respeito, cumplicidade, segredo.
(Eu não estou ecoando aquele e-mail, não é sobre isso). É sobre viver, por um momento, sem a exposição que nos devolve o conforto.
Sem crachá, sem total compreensão, sem “olha o que eu fiz, não é bonito?”, sem um perfil auto-explicativo – quando eu falo isso, pode parecer que acabei de listar o cúmulo do egocentrismo, da pequenice, mas essas coisas são tão normais, positivas, e eu não estou com paciência hoje pra cuspir em cima do que nos constrói enquanto geração.
Só estou parando pra pensar em outra coisa, por um momento.
Como o espaço morto entre o fracasso e a boa desculpa, que nos coloca em uma situação interessante de exposição.
A última vez em que escrevi foi sobre o Derrida, e acho que estou ainda com algumas frases dele na cabeça. Sobre não dizer. Não colocar o final de tudo na linha da expressão.
Passei os últimos tempos entendendo formas peculiares de existência, aceitando que a forma é o todo e o dito é o feito, mas hoje estou tirando férias (aprendi, lição feita), pra lembrar do jogo de fechar a boca, dobrar os lábios pra dentro e esconder meio rosto com as mãos – e ainda assim achar que existe algo!
Todas as Letícias perdidas nos olhares dos outros, hoje eu acho que elas existem além desta. Hoje eu vou dormir sem fazer a ronda pra ver se todas elas estão com as sobrancelhas feitas. Não é só por cansaço que as deixo desprotegidas da feiúra.
É por causa desse jogo momentâneo de ver como se é sendo si, estando inexposta (medíocre, caso a metáfora da feiúra não tenha surtido efeito) em cada ponto da vida onde repousa uma instituição.
Antes de cair num discurso de tesouro escondido, esclareço que cada olhar amigo é pra mim uma instituição, pois lá eu me legitimo.
E que “sou inútil mas sou feliz” é também uma instituição (metida a vanguardista, mas é).
E se desde a primeira frase isto não se afasta de uma verborragia pouco clara, eu acho que concordo.
Mais: se todas as pausas pra explicações não fizeram mais do que estragar o ritmo do texto, eu assino embaixo.
Someone’s playing hard to get around here. We should spank her.
(Eu não estou ecoando aquele e-mail, não é sobre isso). É sobre viver, por um momento, sem a exposição que nos devolve o conforto.
Sem crachá, sem total compreensão, sem “olha o que eu fiz, não é bonito?”, sem um perfil auto-explicativo – quando eu falo isso, pode parecer que acabei de listar o cúmulo do egocentrismo, da pequenice, mas essas coisas são tão normais, positivas, e eu não estou com paciência hoje pra cuspir em cima do que nos constrói enquanto geração.
Só estou parando pra pensar em outra coisa, por um momento.
Como o espaço morto entre o fracasso e a boa desculpa, que nos coloca em uma situação interessante de exposição.
A última vez em que escrevi foi sobre o Derrida, e acho que estou ainda com algumas frases dele na cabeça. Sobre não dizer. Não colocar o final de tudo na linha da expressão.
Passei os últimos tempos entendendo formas peculiares de existência, aceitando que a forma é o todo e o dito é o feito, mas hoje estou tirando férias (aprendi, lição feita), pra lembrar do jogo de fechar a boca, dobrar os lábios pra dentro e esconder meio rosto com as mãos – e ainda assim achar que existe algo!
Todas as Letícias perdidas nos olhares dos outros, hoje eu acho que elas existem além desta. Hoje eu vou dormir sem fazer a ronda pra ver se todas elas estão com as sobrancelhas feitas. Não é só por cansaço que as deixo desprotegidas da feiúra.
É por causa desse jogo momentâneo de ver como se é sendo si, estando inexposta (medíocre, caso a metáfora da feiúra não tenha surtido efeito) em cada ponto da vida onde repousa uma instituição.
Antes de cair num discurso de tesouro escondido, esclareço que cada olhar amigo é pra mim uma instituição, pois lá eu me legitimo.
E que “sou inútil mas sou feliz” é também uma instituição (metida a vanguardista, mas é).
E se desde a primeira frase isto não se afasta de uma verborragia pouco clara, eu acho que concordo.
Mais: se todas as pausas pra explicações não fizeram mais do que estragar o ritmo do texto, eu assino embaixo.
Someone’s playing hard to get around here. We should spank her.
mercredi, avril 18, 2007
Lendo o filme

Numa parte do filme Derrida (Kirby Dick, Amy Ziering Kofman, 2003), ele está sentado num estúdio de TV, nos EUA, e a jornalista começa a entrevista pedindo um comentário sobre Seinfield. Quando ele aperta os olhinhos pra mostrar que nunca ouviu falar disso, ela insinua que, com muita paródia, ao igualar dilemas sobre armários e fé em Deus, o seriado teria algo a ver com a teoria da desconstrução.
– Se você está me pedindo uma dica para as pessoas que assistem sitcoms, eu diria “façam seus deveres de casa, leiam os livros”. Aí falaremos de desconstrução.
Esse é o ponto mais besta do filme, o mais óbvio exemplo da complexa tarefa de falar – discursar – e ser apreendido pelo outro. O clichê americano serve, comme toujours, de maneira didática.
Esse é o ponto mais besta do filme, o mais óbvio exemplo da complexa tarefa de falar – discursar – e ser apreendido pelo outro. O clichê americano serve, comme toujours, de maneira didática.
Enquanto isso, ele segue Derrida frente às outras perguntas do filme, frente aos diretores, frente a um projeto de documentário que ele aceitou e do qual não se arrepende. “Não posso responder a isso em frente a uma câmera”, “Eu não sou realmente assim. Para começar, se fico em casa, não me visto como agora, fico com o meu pijama”. “O que você vai fazer com tudo isso? Fazem 5 anos que estou falando. O que você vai guardar? A sua autobiografia”.
Nenhum desses questionamentos invalida o filme, mas serve para mostrar o seu sujeito. Judeu argelino formado na França, figura da filosofia pós-estruturalista, Jacques se considerava um sobrevivente da geração de 60 (Althusser, Bourdieu, Foucault, Deleuze e Lacan morreram bem antes que ele, que faleceu em 2004).
Viajante do mundo dos textos, sempre se propôs a tecer textos dentro de outros, mostrar discursos dissimulados, destituir e restituir sentido. A briga dele (diálogo sem concessão é mais polido) era com a metafísica ocidental e os seus “conceitos fundamentais”.
Mesmo no centro do pensamento pós-moderno, Derrida não aparece como um iconoclasta, um niilista. Ele não acha que tudo é espetáculo, não esqueceu completamente da política e não concorda com qualquer interpretação que possa ser feita sobre sua fala.
Diz que gostaria de saber sobre a vida sexual de Heidegger, mas avisa que não responde sobre a sua. Não conta mais do que datas sobre a sua história com Marguerite Derrida (esposa), mas diz que já falou bastante sobre si mesmo em textos, mesmo que não explicitamente. “Cada um dissimula de um jeito, diz. Mas o meu é diferente”.
dimanche, avril 15, 2007
Out: auto-controle
Eu entendo – faz um momento que entendo – cada vez mais os bêbados, os obcecados. São tão bonitas as pequenas coisas a que recorremos, só porque elas são próximas, pequenas e eficazes. Elas podem não ser as melhores escolhas, mas o caminho repetido até elas é muito forte, porque curto.
lundi, mars 12, 2007
encomenda esquecida

"Je peux très bien vivre sans avoir un landau à pousser".
Muito contente com as minhas amigas reais, sempre tive, à côté, uma lista de amigas imaginárias, pontenciais, mulheres que eu gostaria muito de conhecer e ter na minha volta. Uma cabeleireira que precisasse de uma cobaia, por exemplo. Uma escritora. Eu gostaria de ser amiga da Virginia Woolf, apesar da depressão. Uma aeromoça - já tentei transformar uma amiga real em aeromoça, mas acho que ela está mas feliz agora, pagando suas passagens. E sempre quis ter uma amiga que desgostasse de bebês. Que tivesse uma certa repulsa.
Encontrei ela neste fim de semana, no meio do café que a gente tomava na calçada, no meio de todas as outras coisas que me agradam nessa pessoa. Foi mais simpático que encontrar 100 euros na rua. Mais simpático, aliás, do que encontrar minha amiga fictícia milionária.
dimanche, mars 04, 2007
Meta-ensino, uma prática francesa
Não é a primeira vez que me acontece. Eu sento numa aula. No caso, uma aula proferida pela vice-presidente da associação de sociólogos de língua francesa, detalhe que eu não sabia no momento da inscrição, evidentemente. Eu sento e começo a escutar aquela aula bem estruturada, com os tópicos perfeitamente entrelaçados uns nos outros.
A fala decorre, citando todo tipo de gente que já escreveu sobre a vírgula em questão. A dona da fala faz uma pausa a cada citação, pergunta na sala quem já leu este autor, esta obra, se espanta com a ausência de mãos levantadas. Prossegue um pouco contrariada mas também um pouco confiante, porque, ela, ao menos, já leu toda essa gente e ela, ao menos, é a que está no banco do professor e ela, ao menos, pode tentar, ao longo do semestre, nos tirar do limbo ignorante em que nos encontramos com as suas 20 ou 25 indicações de obras básicas por aula.
Eu sigo sentada e me apavoro. E me afundo na tendinite anotando todo e qualquer suspiro - por precaução -, para decidir depois quais serão as obras básicas que enternecerão meus olhos. É frustrante, mas, mesmo depois de um ano, eu ainda erro a ortografia dos nomes que escuto, o que me garante embaraços tênues em frente ao buscador da biblioteca - fato que a tecnologia me permite esconder dos outros.
Então, já não mais sentada, eu pesco tudo o que, dentro das minhas capacidades, considero útil para a tal viagem além limbo. Começo a jornada e, como é praxe, não a termino antes da próxima aula. Frustrada mas confiante no entendimento do que vi até então, sento no mesmo lugar, com o desafio de acompanhar outra fala e preencher as lacunas da minha leitura a partir da minha astúcia e percepção - frenesi bastante útil para turbinar o café recém tomado.
Eis que, sentada no mesmo lugar onde massacrou nossa formação prévia ao seu encontro, a professora faz uma medíocre explicação dos seus horários corridos, retoma a folha que usou na aula passada e apresenta, mais uma vez, o plano do seminário, repetindo tudo o que disse até então. Bravo!
A fala decorre, citando todo tipo de gente que já escreveu sobre a vírgula em questão. A dona da fala faz uma pausa a cada citação, pergunta na sala quem já leu este autor, esta obra, se espanta com a ausência de mãos levantadas. Prossegue um pouco contrariada mas também um pouco confiante, porque, ela, ao menos, já leu toda essa gente e ela, ao menos, é a que está no banco do professor e ela, ao menos, pode tentar, ao longo do semestre, nos tirar do limbo ignorante em que nos encontramos com as suas 20 ou 25 indicações de obras básicas por aula.
Eu sigo sentada e me apavoro. E me afundo na tendinite anotando todo e qualquer suspiro - por precaução -, para decidir depois quais serão as obras básicas que enternecerão meus olhos. É frustrante, mas, mesmo depois de um ano, eu ainda erro a ortografia dos nomes que escuto, o que me garante embaraços tênues em frente ao buscador da biblioteca - fato que a tecnologia me permite esconder dos outros.
Então, já não mais sentada, eu pesco tudo o que, dentro das minhas capacidades, considero útil para a tal viagem além limbo. Começo a jornada e, como é praxe, não a termino antes da próxima aula. Frustrada mas confiante no entendimento do que vi até então, sento no mesmo lugar, com o desafio de acompanhar outra fala e preencher as lacunas da minha leitura a partir da minha astúcia e percepção - frenesi bastante útil para turbinar o café recém tomado.
Eis que, sentada no mesmo lugar onde massacrou nossa formação prévia ao seu encontro, a professora faz uma medíocre explicação dos seus horários corridos, retoma a folha que usou na aula passada e apresenta, mais uma vez, o plano do seminário, repetindo tudo o que disse até então. Bravo!
jeudi, février 01, 2007
Aqui não tá tão frio

A grande conseqüência de ter me mudado pra fora da minha cidade e ter flertado com outras é acabar gostando de todas. Depois da nada breve temporada de três meses em Porto Alegre, começo o meu segundo ano francês com um deslocamento que não me faz querer fugir pra lugar nenhum mais, mas, ao contrário, querer ficar onde eu escolhi não estar.
Excesso de possibilidades à parte, o meu contato com a terrinha foi escasso neste primeiro dia, em que eu chutei o fuso horário e dormi até tarde. Notas de uma chegada:
Bonjour, bonjour, merci, merci. Exageros de politèsse voltam a valer.
Livros para crianças. Segundo os livros dos “porquê” e dos “como”, as crianças daqui costumam se perguntar coisas do tipo “Alguém pode roubar a minha alma enquanto eu durmo?”, “Por que os pais sempre terminam sabendo que mentimos?”, “Por que dizemos que um morto vai pro céu se, na verdade, o enterramos?”.
Queijos. Madam, Chèvre, Cammembert, Nature à tartiner e D’ambert na cestinha do super. Tudo a preço de pobre.
Sol, ou falta de. O último sol que vi foi antes de o avião cortar a nuvem pra aterrissar em Paris. Não parece que vai aparecer nesta camada da atmosfera tão cedo.
Política. Os professores não estão gostando da Ségollene Royal.
Grunhidos. “Eh beh, voilà!”, “Ah, bon, bof. », « Ah bah, oui...” voltam a valer também.
Peer to peer. Baixei quatro discos hoje, entre eles a indicada Madeleine Peyroux, bonitinha. Com a velocidade, veio o primeiro medo de ser presa. Eles começaram a fazer isso, aqui.
Notícias (do umbigo). Decidindo que só dar notícias é argumento suficiente para utilizar um pedaço da web, disponibilizo vídeos e fotos nestes endereços.
http://www.youtube.com/profile?user=Leg0p0
http://www.flickr.com/photos/leg8p8/
jeudi, janvier 11, 2007
Monas do mundo, comuniquem-se!
Aeroportos. Ah, esses lugares míticos. O de Congonhas – na verdade, só a parte das conexões internas - me proporcionou ótimos minutos usando a mesa de um café de 3 reais que eu não comprei. Ia até o quiosque dos livros, lia umas frases rindo sozinha e voltava pra mesa pra anotar o que lembrava no caderno. A utilidade do gesto, não vislumbrada naquele então, é isto daqui.
Título do livro: Como dizer MA-RA-VI-LHO-SA em 8 línguas
Subtítulo: Guia de conversação de homens gays em viagens
Editora: Publifolha
Língua que eu li: Français
Frases imperdíveis:
Assunto 1: Mater les garçons (Azaração)
Mate-le bien! (Olha lá aquele cara!)
Ce genre de mec me fait débander*. (Ele não é o meu tipo)
Quel étalon! (Que bofe!)
El est bien baraqué. (Ele é super malhado.)
Il se prend por qui. (Ele é muito metido)
El est vachement bandant. (Ele é muito sexy.)
Une folle/une tante. (Uma bicha.)
Ta bouche en a vu pires. (Você já botou coisas piores na boca.)
Assunto 2: Au restaurant (No restaurante)
Je ne suis pas transparent ! (Não admito ser ignorado !)**
Les garçons pas sages sont privés de dessert. (Meninos mal-criados não merecem sobremesa)
*bander, literamente, significa “ter uma ereção”. Débander, o contrário.
**Assim como esta, a seção “No restaurante” estava lotada de frases que caracterizam faniquitos de reclamações sobre o atendimento, o cheiro, a demora.
Título do livro: Como dizer MA-RA-VI-LHO-SA em 8 línguas
Subtítulo: Guia de conversação de homens gays em viagens
Editora: Publifolha
Língua que eu li: Français
Frases imperdíveis:
Assunto 1: Mater les garçons (Azaração)
Mate-le bien! (Olha lá aquele cara!)
Ce genre de mec me fait débander*. (Ele não é o meu tipo)
Quel étalon! (Que bofe!)
El est bien baraqué. (Ele é super malhado.)
Il se prend por qui. (Ele é muito metido)
El est vachement bandant. (Ele é muito sexy.)
Une folle/une tante. (Uma bicha.)
Ta bouche en a vu pires. (Você já botou coisas piores na boca.)
Assunto 2: Au restaurant (No restaurante)
Je ne suis pas transparent ! (Não admito ser ignorado !)**
Les garçons pas sages sont privés de dessert. (Meninos mal-criados não merecem sobremesa)
*bander, literamente, significa “ter uma ereção”. Débander, o contrário.
**Assim como esta, a seção “No restaurante” estava lotada de frases que caracterizam faniquitos de reclamações sobre o atendimento, o cheiro, a demora.
mercredi, décembre 20, 2006
Diálogos que valeram a pena
Tia Alicia mija na falsa moral das pessoas e nos meus deslumbramentos primários:
- E aí a dona do restaurante era uma mulher loira, bem rica, prima da italiana. Ela tinha três filhos homens. Como sempre quis ter uma menina e nunca tinha conseguido, ela adotou uma africana. A guriazinha deve ter um ano e pouco.
- Ai claro, está tão de moda fazer isso agora. Até a Madonna fez.
Adolescente realista e cruel faz previsão generosa ao segurar a mão desta correspondente:
- Acho que daqui a dez anos eu não vou nem te conhecer mais. Não quer apostar?
- Pô, muito obrigada. Vai se fuder, bshumpf..
- E aí a dona do restaurante era uma mulher loira, bem rica, prima da italiana. Ela tinha três filhos homens. Como sempre quis ter uma menina e nunca tinha conseguido, ela adotou uma africana. A guriazinha deve ter um ano e pouco.
- Ai claro, está tão de moda fazer isso agora. Até a Madonna fez.
Adolescente realista e cruel faz previsão generosa ao segurar a mão desta correspondente:
- Acho que daqui a dez anos eu não vou nem te conhecer mais. Não quer apostar?
- Pô, muito obrigada. Vai se fuder, bshumpf..
mercredi, décembre 06, 2006
Trocas
Nunca mais arrotar. Nunca mais arrotar nem ter dor de cabeça por um quilo a mais.
Dormir quatro horas por noite por uma cicatriz em toda a volta do polegar. Escrever o artigo perfeito por dois meses sem nenhum contato sexual. Poder contrair os músculos da vagina por ter quebrado o nariz aos 13 anos. Ter lido todo o Sartre por perder uma boa amizade. Ter três irmãos homens de corpo moreno por ter sido molestada em escala mediana pelas mãos de um tio. Ser desprovida de pêlos no corpo por perder um filho na primeira semana de vida.
Fazer as melhores músicas da minha geração por chorar todas as noites, durante três anos. Ser ruiva com sardas e seios redondos por pintar os cabelos de preto a cada início de mês. Herdar um apartamento no México por nunca te conhecido meus avós.
Ganhar uma medalha olímpica por ser atropelada às vésperas de uma viagem. Ser mais linda que todas as mulheres de uma cidade por não controlar o impulso de cortar a pele das coxas com lâminas de gilette. Desenhar um bom personagem por perder 50 euros na rua. Ser banhada de elogios por receber na cara um cuspe verde de um tuberculoso, uma vez.
Dormir quatro horas por noite por uma cicatriz em toda a volta do polegar. Escrever o artigo perfeito por dois meses sem nenhum contato sexual. Poder contrair os músculos da vagina por ter quebrado o nariz aos 13 anos. Ter lido todo o Sartre por perder uma boa amizade. Ter três irmãos homens de corpo moreno por ter sido molestada em escala mediana pelas mãos de um tio. Ser desprovida de pêlos no corpo por perder um filho na primeira semana de vida.
Fazer as melhores músicas da minha geração por chorar todas as noites, durante três anos. Ser ruiva com sardas e seios redondos por pintar os cabelos de preto a cada início de mês. Herdar um apartamento no México por nunca te conhecido meus avós.
Ganhar uma medalha olímpica por ser atropelada às vésperas de uma viagem. Ser mais linda que todas as mulheres de uma cidade por não controlar o impulso de cortar a pele das coxas com lâminas de gilette. Desenhar um bom personagem por perder 50 euros na rua. Ser banhada de elogios por receber na cara um cuspe verde de um tuberculoso, uma vez.
Notícias de um divórcio
Julio – O irmão dela morreu.
Sofia – Eu sei, eu estava ontem quando tu ligou. Ela ficou muito triste?
Julio – Sabe, eu nunca vi ela chorar.
Ele tem 78. Ela acordou anteontem com uma hemorragia no nariz. Eles estão se separando.
Sofia – Eu sei, eu estava ontem quando tu ligou. Ela ficou muito triste?
Julio – Sabe, eu nunca vi ela chorar.
Ele tem 78. Ela acordou anteontem com uma hemorragia no nariz. Eles estão se separando.
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